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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Os telejornais segundo a ética (Renato Janine Ribeiro)

Gostaria de apresentar um artigo antigo do Professor e Cientista Político Renato Janine.
Em ano eleitoral é sempre interessante analisarmos o papel dos meios de comunicação na desinformação,  e ocultação dos fatos e ideias, o debate é substituído por comentaristas que enfaticamente dizem "a verdade", como se estivessem acima do bem e do mal... Falam e são as vozes dos donos dos meios de comunicação. Falta ética? Leiam Janine.


Os telejornais segundo a ética
Renato Janine Ribeiro
Devemos discutir os jornais da TV segundo a ética? Pouca gente dirá que não. Mas podemos dizer que eles sejam éticos? É difícil. Infelizmente, porém, quando se critica a telinha, a ética que se invoca geralmente não vai além de um pudor em relação ao sexo. Neste ponto, aliás, duas culturas tão diferentes, como a da direita e a da esquerda, até parecem convergir. Ambas criticam o número de peladas e de musculosos na TV. Só que a direita protesta contra uma sexualidade que não passa mais pelo casamento, enquanto a esquerda reclama da banalização do sentimento e do desejo, reduzidos a bens comerciais.
Na verdade, não há acordo possível, aqui, entre direita e esquerda. Para os conservadores, falar de sexo é um mal. Para os progressistas, o mal não está em falar dele, mas em expô-lo como mercadoria. Seja como for, para a direita a indecência na TV reside no sexo, e para a esquerda na violência. Mas não é nos noticiários da televisão que aparecem peladas ou tiroteios.
Então, como ficam os telejornais? Até a recente intromissão do Big Brother Brasil no Jornal Nacional, o sexo era praticamente ignorado neles. A violência também não é sua marca registrada, pelo menos se pensamos nos noticiosos propriamente ditos – deixando de lado programas diretamente voltados para a (in)segurança pública, como Cidade Alerta, Linha Direta e alguns mais. E assim a discussão ética sobre o noticiário é diferente da habitual. Não mexe com o público, não açula senhoras de Santana (para os mais jovens: foram um grupo de pessoas que, no fim da ditadura militar, protestaram contra o sexo que começava a aparecer na TV: o país sem liberdade, e elas preocupadas com peitos). Por isso mesmo – porque a multidão não sabe que noticiosos devem ser éticos –, é importante discuti-los.
A questão ética, sobre os noticiários, está na qualidade da cobertura e na diversidade dos pontos de vista. Qualquer estudante de comunicações sabe que não há objetividade pura: que mesmo um retrato privilegia pontos de vista, enfoques, excluindo outros. E no entanto não dá para fazer bom jornalismo sem acreditar que seja possível uma certa objetividade. É uma crença insustentável segundo a boa filosofia, mas imprescindível para fazer uma boa reportagem. Essa fé impõe obrigações ao jornalista. Ele deve admitir que, mesmo nos casos mais escabrosos, haja um outro lado – o qual deve ter seu lugar na página ou na tela. Deve repelir imagens degradantes ou abjetas. Deve evitar a linguagem indignada. Deve, enfim, desconfiar da unanimidade, que é inimiga da reflexão.
Importante: estes são princípios tanto da ética quanto do bom jornalismo. A ética, longe de contradizer a qualidade digamos técnica da cobertura, é essencial para ela. E isso porque nela está o cerne da relação entre o jornalista e seu público. A missão do jornalista contém forte elemento ético. Ele desfruta de uma série de liberdades ou privilégios (por exemplo, o de ocultar suas fontes) mas nunca em seu nome pessoal, e sim no de seu público. É só isso o que justifica condutas inaceitáveis no convívio social, como – para dizer o mínimo – telefonar às pessoas em lugares e horários impróprios. Pois bem, se a ética está no cerne da qualidade jornalística, que dizer de nossos telejornais?
É óbvio que eles são deficientes tanto no plano ético quanto no técnico – que, insisto, estão bem próximos. Os telejornais não enfrentam o poder político e o econômico. Estão aquém da própria sociedade brasileira. Com dificuldade, nosso país está construindo uma democracia, quer no plano das instituições, quer no das relações pessoais e dos costumes. Isso significa aceitar melhor o outro, enfrentar a injustiça social. A boa notícia é que está desaparecendo, da consciência popular, a crença de que seria legítima a enorme desigualdade que existe aqui. Este é um primeiro passo para que acabemos com a miséria. Mas a televisão contribui para isso? Não, pelo menos nos principais canais. Mal se discutem as causas da miséria.
Nos primeiros anos do regime civil, no final da década de 80, era engraçado. Ás oito da noite, o Jornal Nacional mostrava políticos, em geral nordestinos, que depois de servir a todos os ditadores se haviam reciclado com a volta da democracia. Apareciam como grandes homens da República. Meia hora depois, a principal novela da mesma rede Globo – por exemplo, Roque Santeiro – expunha clones deles (um destaque, Sinhozinho Malta) como emblemas do que há de pior em nossa sociedade. Esse padrão – o noticiário que fazia a pior ficção, mentindo, em contraponto à novela, que era ficção no varejo mas dizia a verdade no atacado – deve ter-nos enlouquecido um pouco. Como pode a reportagem mentir, a ficção ser veraz? Como podemos assim trocar os sinais da verdade e da invenção? o lugar do jornalismo e o do entretenimento?
Hoje sumiu, dos noticiários nacionais, embora não dos locais, a louvação aos egressos do regime militar, aos coronéis da política. (Eles também foram sumindo, nos últimos doze meses, da política propriamente nacional. As lideranças mais conservadoras se conservam poderosas em seus Estados. Mas parece que não têm mais projeto ou projeção nacional). Só que não entrou, em seu lugar, uma política melhor, feita por exemplo de debates sérios – nos horários e canais de maior audiência, entendo bem, e não a altas horas da noite, quando o grande público já foi dormir. O que entrou foi a cobertura de acontecimentos pequenos, faits-divers, diriam os franceses, variedades. O arremate disso é a vergonhosa cobertura, pelo Jornal Nacional, do vazio de algumas vidas no Big Brother. É raríssima uma reportagem que some o melhor da cobertura factual com uma boa análise.
E também por isso muitos temas ficam ausentes da telinha. Tenho valorizado o papel que a TV dá à mulher. Desde, pelo menos, Dancing Days (1979), a novela prega a igualdade entre os sexos. Não é espantoso que a novela contribua mais, para nossa consciência social, do que os noticiários? Neles não se fala na dívida externa. Quantos ficaram sabendo, pelo noticiário, que a dívida externa subiu pelo menos cinco vezes no governo Fernando Henrique Cardoso? Não se discutem as privatizações, exceto, eventualmente, na TV Cultura. Não aparecem projetos consistentes para o país, nem para os Estados ou as cidades. Lembro que em 1996 eu estive no Rio Grande do Sul – um Estado de forte consciência política – e vi pela RBS, a Globo local, a cobertura do segundo turno das eleições municipais. Em duas importantes cidades gaúchas, a direita e a esquerda disputavam a prefeitura. Cinco minutos de noticiário, e nada além de banalidades como distribuição de santinhos, apertos de mão e comentários sobre a "festa cívica"! Nem uma idéia, umazinha sequer.
Muitos de nós achamos que o ano de 2000 foi um ano de glória para o jornalismo da TV, em particular na cidade de São Paulo: a Globo deu a maior atenção às acusações de corrupção contra o então prefeito e sua maioria na Câmara Municipal. Pelo menos um vereador já foi condenado com base em tais denúncias. E no entanto a discussão da política não foi além da corrupção. A política na TV brasileira é, quando muito, caso de polícia. Mudou-se a prefeitura, mas não tanto porque a nova gestão tivesse compromissos sociais mais fortes do que a anterior – e sim por ser nova e prometer ser honesta. O debate sobre a coisa pública continuou tão fraco como antes. Eu, que voto à esquerda, até poderia gostar que nas eleições de 2000 a direita paulistana fosse tão débil. Mas preferiria que um bom candidato liberal tivesse surgido, propondo incentivos a novas empresas, em vez de Marta Suplicy ganhar quase por um no show do outro lado.
Em suma: os noticiários da TV passam mal na prova de ética. Já sua pauta é ruim, e exclui assuntos fundamentais de interesse para a cidadania. A cobertura é superficial, e raras vezes fornece uma gama razoável de fatos. E a interpretação mal existe. Quando muito, proclama-se a revolta, a indignação. "É uma vergonha!" , dizia Boris Casoy no auge da crise que levou ao impeachment de Fernando Collor. Dez anos se passaram, e não se passou o país a limpo. Mas não porque Boris Casoy estivesse certo, e o país e sua política errados. E sim – talvez – porque a denúncia de corrupção seja má conselheira. Mais importante, isto sim, é sair da oposição maniqueísta entre bem e mal, abrir espaço para as oposições, substituir a sombra pela luz, a cobertura unilateral por uma mais ampla, favorecer análises. Porque, se o noticiário não fizer pensar, quem o fará?
(Maio de 2002)
extraído do site:  http://www.renatojanine.pro.br/Etica/etica.html

4 comentários:

b disse...

A ética do jornalismo é a ética do patrocinador - não o da pasta de dente - mas o grande patrocinador e você sabe que a mídia mundial está nas mesmas mãos.
Por isso os mocinhos são os mesmos e os bandidos também e essa é a ética.
Obrigada.

citadinokane disse...

Barbara,
Pô! Tudo misturado e junto?!

Dra. e Profa.Wilma Marcula disse...

Obrigada e o seu blog excelente!!!

citadinokane disse...

Dra. Wilma,
Muito obrigado por visitar o meu espaço virtual.
Abraços,
Pedro